Home Leia Artigos de Professores Os Aspectos Jornalísticos do documentário " Notícias de uma guerra particular"
PDF Imprimir

 

 

 

                         OS ASPECTOS JORNALÍSTICOS DO DOCUMENTÁRIO
                         “NOTÍCIAS DE UMA GUERRA PARTICULAR”

 


                          Artigo apresentado à disciplina  Alternativas            
                          Contemporâneas em Comunicação, do Programa de
                          Pós-Graduação em Comunicação e Cultura
                          Contemporâneas da FACOM/UFBA, na condição de                 
                          aluno especial.   
                          Professor:  Dr. José Francisco Serafim

 


                               Salvador
                                2009  
                           

RESUMO

Este trabalho analisa os aspectos jornalísticos do documentário “Notícias de uma guerra particular”, dirigido por Katia Lund e João Moreira Salles em 1998-99. São utilizados como base trabalhos sobre análise fílmica, textos teóricos sobre jornalismo e sobre documentários e a experiência prática do autor em telejornalismo. São analisados a escolha do tema pelos diretores, a estrutura do documentário, o papel dos entrevistados especiais, a relevância da montagem e questões éticas envolvidas na realização do filme. Com base nessas análises, entende-se que “Notícias...” pode ser classificado como um produto jornalístico, embora ocorram pequenos “afastamentos” das normas da profissão jornalística.


Palavras-chave: documentário, jornalismo, “Notícias de uma guerra particular”

 

 

 

 

 


                                SUMÁRIO              

1. Apresentação                                    05
2. O Tema                                              06
3. Estrutura do Documentário              08  
3.1 – Mau começo                                         09
3.2 – Os flagrantes                                        10  
3.3 – Entrevistados especiais                        10
3.4 – A montagem em destaque                   11
    4. Questões éticas                               12
        4.1 – A identificação das fontes                12
4.2 – Proximidade com o traficante           13

5. CONCLUSÕES                                   14

6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS     16

 

 

 

1 – APRESENTAÇÃO –

   Não é fácil traçar fronteiras entre o documentário e o jornalismo. Diversos cineastas – Paulo Gil Soares, Eduardo Coutinho, Walter Lima Junior, Maurice Capovilla, João Batista de Andrade e outros – trabalharam para a televisão, em programas como o Globo Repórter. Em “Cabra Marcado para Morrer”, o maior documentarista brasileiro – Eduardo Coutinho – se refere ao seu trabalho, pelo menos duas vezes, como “reportagem”.
   Uma primeira questão que une os dois gêneros – reportagem e documentário – é a objetividade, ou a falta dela. Analistas dos dois campos apontam a impossibilidade de se ser estritamente “objetivo”. A escolha do tema, dos entrevistados, das perguntas a serem feitas, dos ângulos de filmagem, tudo isso está carregado de subjetividade.


   O grande jornalista Claudio Abramo dizia que “a idéia do jornalismo objetivo é uma ilusão que se tenta passar para os jornalistas e deve ser expurgada do espírito dos profissionais. Não existe um jornalismo objetivo. Existem vários.” Já o primeiro ombudsman  da imprensa brasileira, Caio Túlio Costa, afirma que “até onde o repórter tem de ser objetivo perante a fonte de informação? Repeti, não sei quantas centenas de vezes, que a objetividade jornalística é uma balela mas aproximar-se dela é dever profissional”. (AMARAL, 1996: 76-77)


   A pesquisadora Gaye Tuchman diz que a objetividade jornalística refere-se a procedimentos de rotina (aspas, precedentes legais, radiografias e outros) que protegem o profissional dos erros e dos seus criticos:  “Atacados devido a uma controversa apresentação de ‘fatos’, os jornalistas invocam a sua objetividade quase do mesmo modo que um camponês mediterrãnico (sic) põe um colar de alhos à volta do pescoço para afastar os espíritos malignos”. (TRAQUINA, 1999:75)


   No campo do documentário, o pesquisador Brian Winston lembra que os documentários são “artefatos construídos”. Citando a afirmação de outro pesquisador, Paul Rotha, de que “a essência do documentário está na dramatização de material verdadeiro”, Winston rebate: “Dada a necessidade de se decidir que uma câmera estará presente; os acordos que devem ser feitos com aqueles que serão filmados; o efeito da presença da câmera; a decisão de quando filmar e quando não filmar; como iluminar; que lentes usar e onde ficar; onde colocar os microfones – pode-se legitimamente começar a perguntar o que é ‘verdadeiro’ na definição de Rotha” de ‘material verdadeiro’ “. (ROSENTHAL, 19..:21)

   A pesquisadora Trinh T. Minh-ha lança um desafio intrigante: “A realidade é mais fabulosa, mais enlouquecedora, mais estranhamente manipuladora do que a ficção. Entender isso é reconhecer a ingenuidade do desenvolvimento de uma tecnologia de cinema que promove um ‘acesso’ à realidade cada vez com menos mediação”. (RENOV, 19..:98) 


   Partindo do princípio de que tanto a reportagem quanto o documentário estão carregados de subjetividade, pretendemos analisar aqui até que ponto “Notícias de uma guerra particular” segue os “cânones do jornalismo”. Ou seja, procuraremos ver se o trabalho de João Moreira Salles e Kátia Lund pode ou não ser classificado como um produto jornalístico. Até o título do documentário remete a um elemento fundamental do jornalismo, as “notícias”...

   Aqui encontramos uma outra fronteira difícil de ser estabelecida com precisão. O autor deste artigo trabalhou durante mais de 10 anos em emissoras de TV (Manchete, SBT, Cultura, Bandeirantes, Record), fazendo telejornalismo. Por isso, alguns conceitos emitidos neste trabalho provêm da prática profissional e outros de uma pesquisa bibliográfica.

 

2 – O TEMA  –

 

   O tráfico de drogas e a violência, em particular no Rio de Janeiro, estão constantemente presentes nos telejornais brasileiros. Na década de 1990, nossas TVs abertas descobriram que violência “dá ibope”. Isso se deveu a dois fatores básicos: 1) após o Plano Real, lançado em 1993, no governo do presidente Itamar Franco, uma parte da parcela mais pobre da população “emergiu” e passou a ganhar um pouco mais de dinheiro. Uma das primeiras coisas que essas famílias fizeram foi comprar um aparelho de televisão, que é a forma de lazer mais barata (só se paga uma vez). E o órgão controlador de audiências, o Ibope, passou a registrar a presença dessa camada da população, obrigando as emissoras a atenderem também ao gosto dela; 2) com o surgimento da TV por assinatura (TV paga), grande parte da programação de maior qualidade migrou para ela, deixando para a TV aberta a tarefa de satisfazer às camadas mais populares.  E a violência foi uma fórmula encontrada para isso (tivemos o auge de programas como Cidade Alerta, Brasil Urgente e Linha Direta; hoje essa programação mais “apelativa” perdeu força e praticamente desapareceu na programação em rede nacional, tendo se hospedado na programação regional; mas a exploração de temas ligados à violência permanece em praticamente todos os telejornais).

 

   
A temática do documentário continua atual


   Embora “Notícias...” tenha sido filmado há cerca de uma década, os problemas nele abordados se agravaram de lá para cá. Nesse sentido, o documentário continua atual .


   Os “valores-notícia” (que definem o que é notícia e o que não é) frequentemente são intuitivos e podem variar de uma época histórica para outra, de uma localidade para outra e de uma empresa jornalística para outra (de acordo com as diferentes políticas editoriais), conforme lembra Nelson Traquina (TRAQUINA, 2005:94-95). Mas alguns desses valores costumam ser duradouros: o insólito, o extraordinário, o catastrófico, a guerra, a violência, a morte, a celebridade...


   “Notícias de uma guerra particular” abrange vários desses itens: guerra, violência, morte.. Mesmo o assunto não sendo novidade, o documentário traz elementos que podem ser considerados insólitos ou extraordinários: depoimentos explícitos de traficantes; imagens de traficantes passeando armados no meio de favelas; exibição detalhada de armamentos dos dois lados (polícia e bandidos); palavras de uma crueza e uma sinceridade chocantes, proferidas por um delegado...

   Assim sendo, podemos dizer que o tema de “Notícias...” atende perfeitamente às demandas dos valores-notícia.


   Uma máxima que circula nas redações é: “Não existe jornalismo sem conflito”. E conflito é o que não falta nesse documentário.


 3 – ESTRUTURA DO DOCUMENTÁRIO –

  
    “Notícias de uma guerra particular” procura ouvir três dos setores envolvidos na questão do tráfico: policiais, traficantes e moradores das favelas. Faltou um muito importante: o dos usuários. Não sabemos se houve tentativas de incluí-lo ou não, mas o fato é que fica faltando a visão dos principais responsáveis pela existência do tráfico: os consumidores.


   “Ouvir o outro lado” de uma questão ou, mais corretamente, ouvir “todos os lados” (pois frequentemente eles são mais de dois) é um princípio jornalístico básico. Por esse ângulo, “Notícias” segue um dos cânones jornalísticos (embora, conforme apontado, deixe de fora um “lado” fundamental”).

   Curiosamente, as divisões dos blocos do documentário são feitas através de claquetes (“a polícia”, “os moradores”, “os traficantes”...), o que faz lembrar o cinema mudo.


   Podemos notar um desequilíbrio entre os três blocos. Da parte da polícia, falam um capitão, um soldado e um delegado. Entre os traficantes há dois adultos, duas crianças, um ex-prisioneiro – fundador do da organização criminosa Comando Vermelho (Carlos Gordo) -- e alguns prisioneiros. Mas, da parte dos moradores, há somente Adão e a mulher (Janete). Uma outra mulher, Hilda, fala de sua correria no dia-a-dia, mas nada diz sobre o tema do documentário, que é o tráfico (a não ser uma referência rápida ao seu desejo de que não aconteça com seus filhos o que acontece com outras crianças – mas não diz o quê). Uma criança dá opiniões rápidas (“a maioria das pessoas daqui fica do lado do movimento”, ou seja, dos traficantes) e um líder comunitário, Itamar, fala mais como “autoridade” do que como morador.


 
O bandido mascarado “Adriano” se transformou na “cara” do filme


  Evidentemente, temos que levar em consideração que não é fácil conseguir que algum morador de favela fale, numa situação como esta. A “lei do silêncio” costuma imperar por vários motivos (medo de morrer, simpatia para com os traficantes etc). Não sabemos qual foi a extensão dos esforços da equipe de produção para ouvir moradores. Mas o fato é que ela conseguiu algo talvez ainda mais difícil, ou seja, que os traficantes falassem com desenvoltura.


   
   3.1 – Mau começo –


   
   Logo no ínício, no único trecho do documentário com voice over, um narrador diz que, na primeira 3ª feira de cada mês, a polícia do Rio de Janeiro incinera centenas de quilos de drogas de variados tipos. As imagens vão mostrando viaturas policiais chegando a um ferro velho num subúrbio e depois a droga sendo queimada.


   O texto é “oficial”, ele representa o ponto-de-vista da polícia, que quer mostrar eficiência em seu trabalho. Nada é dito sobre uma parte da droga que costuma “desaparecer” (policiais corruptos a roubam para depois revender). A equipe de produção poderia ter levantado informações a respeito disso em arquivos de jornais.


   Nessa abertura, “Notícias...” deixou de ser jornalístico e apresentou um texto “chapa branca”. Não houve o distanciamento necessário em relação à polícia, o que prejudica a isenção e afasta o documentário do ideal do jornalismo (embora muitos jornalistas sejam acusados de assumir o papel de “porta-vozes” da polícia para obter informações exclusivas – é o caso de Cesar Trali, da TV Globo, que obtém muitos “furos” da Polícia Federal). 


  
   3.2 – Os flagrantes –

   
   Em qualquer trabalho jornalístico, flagrantes de cenas “quentes” valorizam o produto, contribuindo para prender a atenção do espectador.

   Nesse sentido, “Notícias...” traz um bom material. Foram usadas imagens de arquivo, algumas produzidas por emissoras de TV (como um forte tiroteio numa favela, acompanhado por um cinegrafista da extinta TV Manchete). E há também cenas colhidas pela equipe do documentário.  Por exemplo, em determinado momento uma equipe da polícia prende um garoto numa favela e começa a levá-lo para cima do morro (e não para baixo). Dezenas de mulheres seguem os policiais e uma delas explica – em off -- que se elas não estiverem presentes o garoto provavelmente será assassinado. Os policiais acabam mudando de idéia e descendo, levando o garoto para um camburão (talvez até por causa da presença do cinegrafista do documentário).

   Mesmo algumas cenas “montadas” têm enorme impacto. Merece destaque a apresentação do arsenal da polícia, feita pelo capitão Pimentel, seguida pela apresentação das armas dos bandidos, por um jovem mascarado.

   
   3.3 – Entrevistados especiais –

   
   Um dos pontos altos de “Notícia...” são as entrevistas com “autoridades” que analisam e interpretam os fatos, dando ao espectador uma visão de profundidade. No jornalismo, diversos veículos (em primeiro lugar a imprensa escrita, mas também a TV e outros) estão buscando cada vez mais essa dimensão analítica, interpretativa ou mesmo opinativa, para fugir da mera cobertura factual, na qual a internet é difícil de ser batida.

   O escritor Paulo Lins, autor de “Cidade de Deus”, é um especialista em questões relacionadas ao tráfico no Rio de Janeiro. Ele fornece um apanhado histórico mostrando como o consumo de algumas drogas – a cocaína em particular – ultrapassou o âmbito das camadas mais abastadas da população e chegou aos morros, o que contribuiu para aumentar a violência. Segundo ele, “a democratização da cocaína mudou tudo”. O tráfico passou a dar muito dinheiro e a disputa pelos pontos de droga se acirrou, a partir da década de 80.

   Com uma música ao fundo e cobertura de imagens variadas (o Rio em décadas passadas, perseguições policiais, tiroteios, tanques do regime militar), Paulo Lins conta também como a ditadura ajudou indiretamente a organizar o tráfico do Rio. Segundo ele, os militares achavam que – ao colocar cinco ou seis prisioneiros políticos junto com 60 prisioneiros comuns – os presos políticos seriam “diluídos”. Mas aconteceu o contrário: eles ajudaram os presos comuns a se organizarem e a não brigar entre si. Daí saiu a organização Comando Vermelho (CV).


  O ex-detento Carlos Gordo, que esteve preso nessa época, confirma o depoimento do escritor e diz que o CV “entrou em todos os buracos deixados pelo poder”. Segundo ele, o objetivo do CV é “fazer tudo o que o governo não faz”.


   Um depoimento merece destaque: o do então delegado Hélio Luz. Ele representa o ponto mais alto do documentário, pela lucidez e coragem com que analisa a questão do tráfico, critica a mentalidade da sociedade e joga questões profundas para o espectador, levando à reflexão.


   Luz explica que o tráfico é “emprego” para muitos jovens: em vez de receber um salário mínimo de R$ 112 (à época), trabalhando de 8 a 12 horas por dia, eles recebem do tráfico R$ 300 por semana, “ganhando mais do que os pais”.


  O delegado emite afirmações como “a polícia faz o papel de ‘proteção da elite’ e só pode usar a repressão para controlar dois milhões de pessoas nas favelas”. Ele admite que a polícia é uma instituição corrupta e afirma que “nós garantimos uma sociedade injusta”. Luz diz ainda que todos nós deveríamos  primeiro definir que tipo de sociedade queremos. E cita experiências que viveu, em que foi impedido de chegar a criminosos bem colocados na pirâmide social. Ele lança o desafio: se a sociedade quer uma polícia que não seja corrupta, “é só parar de cheirar em Ipanema” (pouco depois de terminado o documentário, o delegado deixou seu cargo e acabou virando deputado estadual).


   
   3.4 – A montagem em destaque –


    
   “Notícias de uma guerra particular” vai deixando os entrevistados falarem, sem pressa, e vai mostrando imagens, compondo o complexo quadro da questão do tráfico no Rio de Janeiro. Mas, no final, a habilidade dos diretores e do editor Flávio Nunes se mostra de forma impactante.

   No depoimento do delegado Hélio Luz, que já é bastante forte (conforme vimos anteriormente), é colocada uma música do tipo suspense (como se fosse um tambor) em background. Ele diz ‘Não vejo luz”. Entra uma claquete com a palavra “Cansaço” e vamos para dois enterros: o de um policial e o de um favelado.


   A partir daí o ritmo vai se acelerando, como num crescendo musical. Durante as imagens dos enterros surgem frases curtas e fortes de vários personagens: “Nunca vai ter fim” (o líder comunitário Itamar), “Vou ficar nessa vida até morrer” (garoto traficante), “As forças do bem perderam a guerra” (delegado Hélio Luz), “O único segmento do Estado que vai até o morro é a polícia. Só a polícia não resolve” (capitão Lacerda), “Tô cansado. Desse serviço eu to cansado” (novamente o capitão). O efeito dramático é reforçado pelo sobe-som de tiros em homenagem ao policial morto.


   No final, a bela idéia de edição para reforçar a mensagem de que, nos moldes atuais, essa guerra não tem saída. Num cemitério, a câmera para numa parede onde são colocadas urnas funerárias. Entra um pequeno letreiro com o nome de um policial morto e as datas de nascimento e morte. Depois entra outro letreiro, com os dados de um morador de favela morto. A seguir mais um policial, um bandido, um morador... A tela vai se enchendo enquanto uma música que começou baixinho vai aumentando. A tela termina ficando preta, coberta por centenas de letreiros, dando a idéia de continuação ad infinitum.


 


4 -- QUESTÕES ÉTICAS –

 

   “Notícias de uma guerra particular” coloca questões éticas relevantes, algumas das quais causaram grande polêmica.


   4.1 – A identificação das fontes –

   Vários dos entrevistados não hesitaram em mostrar seus rostos, mesmo no caso de   criminosos. Mas é natural que muitos não quisessem se expor, fossem eles policiais ou bandidos.

 


   Alguns presos falaram tranquilamente sobre seus planos criminosos, para  quando saíssem da cadeia

 

   O tratamento dado a essa questão pelo documentário é desigual. Quando policiais estão em ação numa favela, uma “máscara” (recurso de edição) foi colocada sobre os rostos deles, evitando a identificação. Mas o mesmo não acontece quando vários dos traficantes falam. A máscara aí só cobre os olhos e deixa livre o restante do rosto.


   Um caso gritante é o de um rapaz identificado como Francisco, de 16 anos. Ele canta um rap antipolícia contundente. Além de a máscara cobrir mal o rosto dele, o rapaz tem fortes queimaduras nos dois ombros. E foi filmado da cintura para cima, com o dorso nu.

   Fica a pergunta: será que João Moreira Salles e Katia Lund não deram todas as condições para que a polícia identificasse (e eventualmente matasse) uma fonte que se dispôs a colaborar com o trabalho deles? Mesmo o rapaz tendo sido ouvido num local que parece ser de detenção (ou seja, já teria sido identificado e preso pela polícia), a violência do rap e das palavras podem ter insuflado os policiais a agir contra ele.

   4.2 – Proximidade com o traficante –


   Quando “Notícias...” foi lançado, houve uma grande polêmica por causa do relacionamento do diretor João Moreira Salles com o chefe do tráfico no morro de Dona Marta à época, Marcinho VP.


   Marcinho já tinha aparecido no documentário “Santa Marta: Duas Semanas no Morro”, de Eduardo Coutinho, rodado em 1987 (e que está no DVD de “Noticias...”). Ele era um jovem que gostaria de ser desenhista profissional. Mas acabou virando traficante.


   Moreira Salles pediu a Marcinho autorização para rodar “Notícias...”. Talvez acreditando que ele poderia se regenerar, pagou R$ 5 mil para que Marcinho publicasse um livro de memórias e largasse o tráfico. O livro não foi escrito, Marcinho foi preso em 2003 e assassinado no presídio de Bangu 3 por uma quadrilha rival.


   O então governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, e seu secretário de Segurança, Josias Quintal, criticaram a atitude de Moreira Salles. Este se defendeu dizendo:


“Do ponto de vista jurídico, o que houve foi a contratação de um livro. Não há empecilho nisso, mesmo com um foragido da lei. Do ponto de vista moral e ético realmente me sinto à vontade. Acho que é legítimo tentar compreender as razões de quem optou pelo caminho errado. Enquanto a gente não entender as razões, Márcios VPs surgirão todos os dias no Rio. O documentarista quer compreender a realidade e às vezes precisa penetrar nela, ultrapassar os limites do conforto e do que seria mais prudente.”  (NEGRÃO, 2007)


   Como não houve crime e nem é possível dizer que “Notícias...” toma partido dos bandidos, a polêmica se esgotou.


   No jornalismo, existem discussões semelhantes. Alguns profissionais defendem que vale mentir, roubar, seduzir, subornar, enfim usar qualquer recurso que permita a obtenção de informações de interesse público. Já outros afirmam que não, e condenam até mesmo o uso de câmeras escondidas. Mas, dificilmente a postura de Moreira Salles seria condenada por jornalistas.

 

5 – CONCLUSÕES –

 

   “Notícias de uma guerra particular” é essencialmente um trabalho jornalístico, apesar de um deslize na abertura (apresentação de uma versão muito “oficial”).

   Não se pode dizer que este documentário seja totalmente “objetivo”, como nenhum trabalho jornalístico é. Mas ele se esforça para apresentar os “diversos lados” de uma questão polêmica, como pregam os bons manuais jornalísticos (embora tenha deixado de lado os usuários).

   Pode-se afirmar que “Notícias...” vende uma idéia central: a guerra entre polícia e traficantes é inútil e não tem saída, enquanto não forem feitas mudanças estruturais na sociedade brasileira. Mas, se formos analisar a maioria dos trabalhos jornalísticos, veremos que eles também “vendem” uma idéia, mesmo que busquem aparentar objetividade. Uma maneira de se fazer isso está na escolha dos entrevistados: Katia Lund e João Moreira Salles entrevistaram o general Nilton Cerqueira mas não usaram o depoimento no documentário, preferindo privilegiar as visões do então delegado Hélio Luz, que está mais “à esquerda” do general. Jornalistas fazem isso frequentemente (seja para ir mais para a esquerda ou a para a direita).


    É interessante notar que os documentários têm tido muita influência sobre o cinema de ficção brasileiro, nos últimos anos. Já houve quem visse no Capitão Nascimento, de “Tropa de Elite” (de José Padilha, 2007), forte influência do Capitão Pimentel, de “Notícias...”. “Cidade de Deus” (Fernando Meirelles, 1998) também trabalhou com atores não profissionais, muitos deles moradores da região retratada no filme, o que facilita o “convencimento” do espectador (por sinal, Katia Lund foi co-diretora de “Cidade de Deus” ).


   O irmão de João Moreira Salles, Walter Salles, declarou que baseou seu filme “Linha de Passe” (2008, em parceria com Daniela Thomas) em dois documentários do irmão João Moreira Salles: “Futebol” (1998, em parceria com Arthur Fontes) e “Santa Cruz” (2000, em parceria com Marcos Sá Corrêa).


   Breno Silveira filmou “Era uma Vez...” (2008) na favela do morro do Cantagalo, em Ipanema, seguindo os ensinamentos do seu mestre Eduardo Coutinho (com quem trabalhou –como câmera – em “Santa Marta: Duas Semanas no Morro”).


   Bruno Barreto criou o roteiro de seu filme “Última Parada, 174” (2008) a partir do documentário “Ônibus 174”, de José Padilha (checar data).


   Assim, como aponta André Nigri (BRAVO, 2008), “a imbricação do atual cinema brasileiro de ficção com o documentário é tão profunda que se pode falar em tendência, da qual os três filmes que estréiam neste meio de ano [“Linha de Passe”, “Era uma Vez...” e “Última Parada, 174”] são apenas a manifestação mais recente”.


   Mas isso é assunto para outro artigo.


   
 
6 – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS –


AMARAL, Luiz. “A Objetividade jornalística”. Porto Alegre: Cesgranrio, 1996.

 

MINH-HA, Trinh T. “The Totalizing Quest of Meaning”. In: RENOV, Michael. “Theorizing Documentary”. New York-London: Routledge, …

 

NEGRÃO, Lucas. “Notícias de uma guerra particular dentro da esfera jornalística”. In: Site “Corra Bezzi, Corra”, 04/04/2007).


Disponível em: (HTTP://allyouwanna.blogspot.com/2007/04/noticias-de-uma-guerra-particular.html).
Acessado em 07 de abril de 2009.

 

NIGRI, André. “Eu Vi um Brasil no Cinema”. In: Revista BRAVO!, agosto/2008.


Disponível em: (HTTP://bravonline.abril,ig.com.br/conteudo/cinema/cinemamateria_292504.shtml)
Acessado em: 07 de abril de 2009.

 

TUCHMAN, Gaye. “A objectividade como ritual estratégico: uma análise das noções de objectividade dos jornalistas”. In: TRAQUINA, Nelson (org.). “Jornalismo: questões, teorias e ‘estorias’ “. 2. Ed. NÃO INFORMADO: Veja, 1999.

 

TRAQUINA, Nelson. “Teorias do Jornalismo – volume II:  A tribo jornalística – uma comunidade interpretativa transnacional”.  Florianópolis: Insular, 2005.

VANOYE, Francis e GOLIOT-LÉTÉ, Anne. “Ensaio sobre a Análise Fílmica”. 5ª Ed. Campinas: Papirus, 2008.

WINSTON, Brian. “Documentary: I Think We Are in Trouble”. In: ROSENTHAL, Alan (org.). “New Challenges for Documentary”. Berkeley, Los Angeles, London: University of California Press, … 

 

 
Por favor registre-se ou faça login para adicionar comentário para este artigo.
® Copyright 2009 UNIJORGE Centro Unversitário Jorge Amado. Todos os direitos reservados - All rights reserved